Sobre aquilo que eu não queria falar

a lei do eterno retorno

da saudade

que vem

se instala

que fere

corrompe

e vai embora.

ela vem em forma de foto,

num cheiro da roupa esquecida,

no som da voz que ecoa distante,

num quadro que eu pintei com os olhos

e pendurou-se na parede da memória.

a saudade…

o quadro que tirei da parede

mas deixou a marca da poeira do tempo

o tempo que eu não deixo ir…

imfone

Anúncios

Meu Amor Acústico

large

meu amor acústico

luz amarela e pouca

intimidade de um luau a dois

vozes roucas de dizeres francos

sussurros aeróbicos dum ouvido pro outro

ciranda de mãos silenciosamente curiosas

amor acústico meu

num quarto de Hotel

uma diária:

uma vida inteira

o amor acústico que

não permite fatores externos

inteiramente calmo e alheio do mundo;

buzinas

latidos

gritos

é fantasia de Oz,

fruto da nossa imaginação

o amor acústico

faz tudo

mansidão

imensidão

clarão de lua

de festa de

São João.

Escrito em: 22 de março de 2013.

Levei sua ausência para jantar

Me levei para jantar naquele restaurante que a gente frequentava.

You should have been nice to me, It would have been so easy. You could have waited. "You Should Have Been Nice To Me", The Smiths.

You should have been nice to me, It would have been so easy. You could have waited. “You Should Have Been Nice To Me”, The Smiths.

O garçom esqueceu de tirar os talheres do outro lado da mesa e isso deixou uma sensação da sua presença risonha. Parece que você saiu para ir ao toalete enquanto seu prato não chega.

Peço ao garçom que tire os talheres.

Peço um guaraná, mas possuo o ímpeto de pedir vinho. “Uma taça?”, o garçom diria. “Não, a garrafa inteira”, eu responderia discretamente melancólica ao rapaz que, sem perceber, ergueria as sobrancelhas um tanto presunçoso, mas notaria que foi deselegante e se retiraria constrangido.

Acaba a luz no restaurante, displicente destino. Todos gritam de susto e eu só me faço iludir que assim que as luzes acenderem, você estará de volta no seu lugar, lá do outro lado da mesa estreita pra dois, com um sorriso nos lábios com formato de coração.

Mas a luz volta e só vejo meu reflexo pálido no espelho ao fundo do salão.

Bebo de uma vez o guaraná procurando no fundo da garganta algum indício de que aquilo me deixaria um pouco menos lúcida.

Faço sinal e o garçom traz a conta. Pago-lhe e procuro a bolsa para me levantar lentamente, com cuidado para não esbarrar comigo mesmo no espelho, lá no fundo do salão.

Paro perto da saída. Olho para trás e meio que te vejo acenar pra mim, sorrindo,  como se eu estivesse indo comprar cigarros e já voltava.

 

 

Início de Fevereiro, 2013.

Veja bem, meu bem

Olha, garota, de que me serve “eu te amo” somente quando bêbada? Isso não me basta. Eu não quero amor embriagado, com gosto de vodka barata, tão metafísico e intocável. Eu quero amor palpavel, amor lucido, amor que existe após a ressaca. Essas migalhas tu guarda pra si, que eu ando faminto de tanto me negar o pão inteiro! Essa coisa de me regular cansa. Me rouba as fribas do corpo, garota.

Isso também de amar um dia sim e outro não me esfarela.

Cansei! Chega!

Amor aos feriado e as sextas massacra qualquer coração aflito, meu bem. Ou me ama de segunda a domingo ou me ama dia nenhum.

Mas você me liga tão mansa… tão cautelosa e sensível precisando de proteção, querendo que eu te envolva nos braços a todo custo. E eu, um pobre homem fodido e sozinho nesse apartamento que não entra luz faz três meses por não ter pago a conta, vivo a velas e migalhas de pão e de afeto. Você me dá a mão. Eu não tenho forças nenhuma para te dizer não, já que as gastei inteiramente inclinando a te rejeitar.

Dilacerado, rouco e calvo, eu abro a porta.

Vamos, entra logo antes que alguém veja. Não quero que pensem que abro a porta para a mulher que me faz entrar no elevador com essa cara horrível.

 

[5, janeiro de 2013]

----

(amo)ntoado

.

  eu sou um amontoado

 de amores

inacabados

[imagem da web]

[imagem da web]

Qualquer coisa sobre quem não me quer mais

389390_314901841870877_267211609973234_1166526_1727103796_n

Você pensa que não sinto

Que não vejo

Que não sorrio

Quando seus olhos

Caem sobre mim

Em procura de algum vestígio

Daquilo que um dia

A gente sentiu

 

Por mais que me ignore

Por mais que me negue

Existe tudo aquilo que a gente (sobre)viveu;

Todas as manhãs lentas

No edredom

As tardes quentes

No Leblon

Você tirando

O meu batom

 

Os nossos corações ainda batem

Em mesma simetia

Quando nos vemos

Mas não nos damos bom-dia

Um conto de metrô e nada mais

3169os-novos-baianos-3_large

Entrou no vagão de cabeça baixa porque ele é daqueles tipos que não gosta de esbarrar os olhos no olhos de ninguém. Não se trata duma pessoa tímida, mas acontece que, para ele, quando você esbarra o olhar no olhar de outra pessoa a outra pessoa vai pensar que você já estava olhando havia muito tempo e que provavelmente ele já estaria alimentando algum tipo de interesse, e ele não queria estar aparentando interesse por ninguém.

Também não se trata de uma pessoa ranzinza; talvez ele só fosse uma daquelas pessoas serenas que gostam de estar sozinhas em seu próprio mundo, com uma socialização até que agradável, mas só o necessário para manter sua rotina pacata no ciclo profissional que ele formou há trinta anos atrás e o segue até então.

Ele não esperava que uma senhora com problemas de coordenação em suas pernas encaroçadas esbarrasse em si e o obrigasse a olhar para frente e encontra-lá sentada igualmente em seu mundo de pessoas serenas que gostam de estar só. Ela tinha a cabeça baixa e escrevia num daqueles celulares que se toca a tela, só que ela escrevia freneticamente não como alguém que escreve uma mensagem para outra pessoa, e sim como alguém escreve algo para si mesmo.

Ele, então, deixou de ser o cara de cabeça baixa sereno que mantinha-se em seu próprio mundo para se tornar o cara sereno que tentava desvendar o mundo dela. Seu foco era claro, portanto um circulo celestial e iluminado se formou ao redor da garota que escrevia continuamente no seu celular de tocar a tela e tudo que havia ao seu redor era opaco, grandes manchas sem face.

Uma mecha de cabelo posta atrás da orelha. Uma torcida de nariz. Um franzir de lábios – ela franzia muito os lábios, tanto que aquele exercício com a boca tornou-se exclusivamente um ato somente dela a partir de agora e pra toda vida. E um olhar vidrado em qualquer ponto no chão preto do metrô para recolher alguma informação.

Em momento algum os seus olhos esbarram os olhos dele.

Na estação seguinte quando percebeu estava sentado ao lado dela num meio impulsivo-impensado, a propósito até cambaleou um pouco já que seu corpo não está acostumado com comandos impensados.

Percebeu que ela tinha um cheiro doce, um cheiro muito doce vinha dela, só que essa menina não tinha cara de quem era doce de fato; não que não seja feminina, acontece que ela tinha cara de que tudo que fazia era súbito. Que seu corpo já estava acostumado a fazer tudo o que seu cérebro acabou de pensar. E garotas delicadas não moviam um dedo sem antes ter pensado muito bem naquele movimento, então o fazia devagar e tornam isso algo delicado. Essa garota não é assim e ele achava que ela tinha jeito de quem fazia cinema. Cinema? Achou gozado tudo aquilo que estava supondo de uma pessoa que acabou de sentar ao lado. Porém, ele sentia que ela convidava qualquer um ali para descobri-la, ele sabia que era isso que ela sabia e fingia que não sabia, pra dar aquele ar de mistério, aquele ar de “nem estou sabendo de nada”. Era bem coisa de cinema.

Ela parou. Fez careta. Bufou. Respirou fundo cinco vezes e fez com as mãos a posição de ioga. Bufou de novo. Esfregou o nariz.

E de repente:

– Você não fica puto quando seleciona sem querer o texto e muito mais sem querer você aperta outra tecla e o texto todo é substituído por aquela maldita letra?

Ela desfez toda a muralha de seu mundo e penetrou-se no mundo vizinho com tanta ousadia e espontaneidade que o deixou zonzo, boca seca, sem resposta.

– Hoje está decretado o meu ódio perpétuo pela letra jota. Essa letra petulante engoliu todo o meu texto. E sabe o que é pior?

Ela falava sem olhar para ele, mas claramente todo aquele dialogo era para e com o homem sentado ao seu lado.

– O pior de tudo, colega, é que esses malditos não pensaram em fazer essa merda de celular com uma droga de tecla control! Aí, amigo, era só control e Z, e pimba! O jota vomitava de volta todo meu texto.

Respiraram fundo. A próxima estação era para todos deixarem o trem, então ela se levantou.

– Au revoir, Antonio. Você tem cara de Antonio, já te disseram? Obrigada pelo monólogo.

E saiu pela porta do vagão.

Em dois incríveis segundos ele sentiu uma dor agonizante no estomago e uma amargura na boca que jamais sentirá. Levantou-se e conseguiu sair antes que a porta do vagão se fechasse.

Procurou aquele cabelo em rabo-de-cavalo dançante em meio a tantas cabeças que formigavam o lugar.

Avistou-a, enfim, próxima a escada rolante, como quem esperava por algo,

– Ei – ele tentou a primeira vez e saiu um fiapo de voz esquisito – Ei! – tentou novamente e chamou-lhe atenção.

Ela virou. Ele ficou parado a sua frente, no meio da multidão sedentária que brigava para subir a escada rolante.

– Fico ainda mais puto quando acaba a energia no meio de um texto, mas ai eu penso que o Word vai salvar automaticamente e quando volto a ligar computador, ele não salvou coisa nenhuma.

 

Os dois ficaram em silêncio.

Ela agachou até conseguir alcançar os olhos dele que sempre estavam no chão, e o penetrou forte as retinas com seus grandes olhos de jabuticava, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes assim bem gratuitamente, e ele esbarrou os olhos nos olhos dela porque quis e estava interessado nela, e ele quis como um condenado a morte quer viver que ela estivesse interessada nele também.

– Eu ia tomar um café na padaria aqui do lado… mentira, eu não ia, mas eu vou se você quiser ir tomar um café na padaria. – Ela conteu-se a somente um suave sorriso de lado, porque de delicada não tinha nada – Você quer?

Ele chegou a abrir a boca, a boca dele era uma boquinha pequena e rosa e ficava ainda menor na grande barba cinza, então não se sabia se ele tinha aberto a boca e perdido a fala ou se tinha simplesmente entreaberto a boca para soltar todo o ar que seu grande nariz sugou.

De todo modo, ele sacou o maço de cigarros do bolso. Se lembrou que ainda estava dentro do metrô e antes de coloca-lo de volta ao bolso, soltou um “Quero”. Ela disse “Hã?” e ele disse:

– Quero tomar um café na padaria.

an(seio)

É tão rico

ansiar

e

ser

ansiado

na mesma

ansiedade

"Ne vous déplaise, en dansant la Javanaise.  Nous ous aimions, le temps d'une chanson"

“Ne vous déplaise, en dansant la Javanaise. Nous ous aimions, le temps d’une chanson”

No Metrô

No metrô

Me apaixono a todo momento

Por orelhasImagem

Por mãos

Por ombros

Por vozes

Por cabelos

E percebo

Em meio a mais de cem

Quantos amores

Vem e vão

Entre o vão e a plataforma

Do trem?

01, abril de 2013.

Eu era um passarinho preso até que percebi que eu também era a gaiola

Quero entregar rosas a Iemanjá, quero renovar meu espírito com os budistas, rezar com os católicos, dançar de vestido branco com os macumbeiros, pintar o rosto numa tribo, rolar no jardim de Alá, roubar a cachaça dos santos, ás vezes acreditar em nada com os ateus, questionar como os filósofos e rir leve como os ignorantes.

Quero usar vestido de bolinha numa festa de blues, bota preta e cachimbo num show de rock, sambar descalça atrás do trio elétrico, chorar com a pureza do fado, rodar a saia no pagode de sexta e adiar a vida ouvindo MPB.

Quero namorar um pintor, romper com um ruivo numa roda-gigante, ter um rolo com um francês canhoto, casar com um homem sem dons, me divorciar de um milionário mestiço, trocar cartas com um ator de teatro ex-fumante-compulsivo, flertar com um escritor fracassado, ter um romance intenso com um cantor de rua de sapatos furados, sofrer por um artista de circo que se foi, ter lua-de-mel com um boemio desempregado em Los Angeles, fazer amor numa caverna com um professor universitário, fazer sexo com um desconhecido que usa sapatos sem meias, beijar um negro arquiteto no elevador de um hospital, fazer promessas a um libanês ao comer acarajé no Rio Grande do Sul, morar junto com um libertino que já foi casado por vinte anos, ter um filho de um homem que dizia não querer ter filhos, ser madrastra do filho de um judeu, ser o amor platônico de um poeta romano, ter como amor platônico um cara esquisito e que fala pouco, quero amar todo mundo e não amar ninguém.

Quero ter a intensidade do escorpiano, a libertinagem do geminiano, a curiosidade do sagitariano, a alegria do leonino, a calma do pisciano, a paixão do canceriano, a excentricidade do ariano, a determinação do virginiano, a aventura do aquariano e toda intuição dos astros.

Quero o nada do nada.

Tudo de todos.

Tudo de mim pra ser mais Eu.

tumblr_lpqo67yHGM1qfg3zuo1_500

Entradas Mais Antigas Anteriores