Aurora

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?” (Charle Bukowski)

A vida é linda: brisa lua sol primavera vozes risadas gente pele suor filosofia bar paixões partidas ausências saudações saudades.
Aurora pintava as unhas roídas de vermelho. Ajustava a saia cumprida num corpo feito pro pecado. Não podia faltar a boina vermelha e o batom. Realçavam a pele morena e o cabelo-manto cor do breu noturno.

Pegou a bolsa de pano e partiu pra aula. Fazia poesia com olhares alheios e fantasiava a custa dos corpos que passavam perto de si.

A vida, o preconceito e a injustiça te doíam nas costas, nos ombros, nos pés. Não na alma. Sua alma era instável; não se apegava a sentimento algum, mas amava a todos.

Chegou ao prédio enorme de alguma parte da geografia de São Paulo e sentou-se em sua cadeira no fundo. Entre boa tarde, como passou o fim de semana, com quem transou na noite passada, adentrou um novo corpo na sala branca calando a todos e secando a boca de Aurora.

Esguio, cavanhaque e mistério. Um “boa tarde” bastou pra molhar a calcinha da garota. “Sou Paulo, novo docente de vocês”.

Ela se inquietou na cadeira. Ele a notou. Gemeu, baixinho, a morena flor. Foi atração instantânea, um magnetismo súbito e num ímpeto a atingiu. Agrediu teus pensamentos e atiçou os desejos.

Todo aquele teatro, regozijando de fantasias, utopias e quimeras. Seus olhos transavam com aquele corpo magérrimo que caminhava de um lado para o outro, teorizando algo que ela nunca soube.

No fim da tarde caiu num bar da Rua Vergueiro. Com cigarros, garrafas, arrepios, entre risos só, entretanto sentia, todavia, todos viam, todos vinham e ela ia com a cevada para outra atmosfera.

Não agüentou o latejar infindável no botão da rosa, vermelhinha entre suas coxas. O poder da cerveja e de sua própria índole salaz a levou até o banheiro do boteco. Ali mesmo, num passeio impudico com os dedos, se desfez em uma masturbação concisa, mas um orgasmo longo.

Pagou a conta e foi embora.

Durante meses foi assim: após as aulas chegava em casa, possessa, e com um cigarro no canto esquerdo da boca pintada, deliciava-se singularmente com pensamentos coletivos a respeito daquele homem de 1,85cm.

Numa noite fresca de primavera entrou num bar da Rua Augusta. Era quarta-feira e estava parcialmente vazio. Detestava luzes fortes e a presença vasta em bares; não a notavam entre tantos corpos e isso a irritava. Gostava de ser cobiçada visualmente enquanto bebericava um copo de cerveja barata com seus lábios de batom vermelho, esperando que a próxima não fosse ela que pagasse.

Um estranho sentou do seu lado. Falava asneiras.

Morena. Drinque. Linda. Meu. Apartamento. Toalhas. Gozada.

Foi o que Aurora entendeu de toda aquela merda.

Na porta viu um homem alto adentrar. Paulo estava sozinho e sentou-se numa mesa de duas cadeiras próximo janela.

A adolescente sentiu sua virilha esquentar. Pegou sua garrafa quase cheia e seu copo pela metade, pediu licença ao tagarela fedido ao teu lado. No balcão recolheu outro copo com o anelar, e sentou-se ao lado de seu docente sem solicitar permissão.

“Oi” disse enquanto já enchia o copo vazio e completava o seu.

“Aurora?” balbuciou o homem de trinta e dois anos, surpreendido com a presença de sua aluna. “Que surpresa”.

Ela sorriu atrás do copo que segurava próximo da boca vermelha. “Bebe ai”.

Ele riu intrigado, e não disfarçava no olhar.

“Sozinho?” indagou, sem esperar qualquer outra reação.

Ele pegou o copo e levou até a boca pequeninha. Aquela boquinha não parecia representar ameaça alguma, mas nos pensamentos de Aurora, ela fazia loucuras.

“Sim” apoiou o copo na mesa. “Fazendo esquenta pra balada. Os drinques lá são caros”.

E não disseram mais nada.

A garota deixava o lugar claustrofóbico com a maneira que o olhava. Sentia-se acanhado ao mesmo que atraído. Menina estranha que parecia esconder tanta coisa.

“E o que faz aqui… sozinha?” Paulo quebrou o silêncio que começava a incomodá-lo.

“Bebendo” foi o que disse apenas.

“E por que bebe? É nova ainda, mesmo que não aparente”

Ela riu uma risada doce, seqüenciada e lírica. Paulo viu doçura em meio a tudo aquilo que não sabia o que era. Mas a garota também se encontrava na mesma situação: por mais que o professor parecesse sociável e calmo, ele representava um estratosférico desafio à garota da boina vermelha.

“Bebo para que as pessoas se tornem mais interessantes” Bebericou o copo, agora, vazio.

“Faltam quantos copos para que eu me mostre interessante?” disse rindo o professor, um comentário ingênuo, sem intenções. Estava achando aquilo divertido.

Ela encheu seu copo e vagarosamente, com aqueles olhinhos estreitos de mestiça indígena, passeou a imensidão castanha pelo tórax amostra pela imprudência de dois botões abertos da camisa branca. Via varias guias contra o peito magro e branco. Qual seria o sabor da sua pele? Pensou. E ela olhou nos olhos de Paulo, que olhou pros dela, e aquela loucura a fez sentir-se nua.

“Teria de saber quantos copos de você para que a cerveja pareça interessante”

A cevada já era grande parte da sua cabeça. Estava da forma como gostava; a calcinha encontrava-se toda molhada por trás da saia e os mamilos rígidos contra a camisa de tecido fino.

“Tá a fim de ir comigo na balada?” foi o que apenas conseguiu dizer, o homem com cara de surpreendido.

E com um sorriso saiu um “Claro”.

Os dois sumiram.

Entraram num lugar escuro com pouca gente. A pista era grande e tocava Enjoy The Silence, de Depeche Mode. Aurora apreciava aquela canção com intensidade, demonstrava isso na maneira como mexia os quadris no ritmo da música, e cantarolava com simetria. Paulo parecia preso em seu mundo enquanto oscilava os ombros e pernas singelamente, com os olhos fechados.

Uma coxa grossa e lisa tocou sua mão. O homem abriu os olhos: Aurora estava perto.

Garota safada, pensou. Estava adorando aquilo. Então apertou a coxa dela e a fez gemer. Ele ameaçou beijá-la, que por sua vez rosnou. Outra e outra vez. As mãos de unhas roídas agarraram os cabelos lisos da nuca e o beijou com volúpia. O que aquela menina sabia fazer com a língua era inacreditável.

Não importava o que acontecesse, ela estaria dançando. Com os dedos dele passeando em sua rosa toda desabrochada, ela toda quentinha e úmida, ele ereto, e dançava dançava dançava.

Orelhas pescoço ombros costas virilha saliva suor.

E dançava, a menina feliz. Beatles, The Cure, Killers, Smiths, Chili Peppers, Clash, Doors.

Precisavam fumar. E foram pra fora da pista. Cigarros acesos e olhares presos, nenhuma palavra. Ela riu, ele o fez logo em seguida.

“Como aconteceu?” ele perguntou como quem falava consigo ou com todos.

“Eu te quis e aconteceu” ela respondeu como se fosse óbvio.

“Desde quando?”

“Desde que entrou naquela sala e disse boa tarde, sou Paulo” tragou.

“Ai você se apaixonou” e ele riu.

O semblante dela não alterou. A fumaça saiu pelo nariz.

“Ai eu senti tesão e me molhei toda” tragou novamente.

“Interessante” espantado, intrigado e estimulado também tragou.

Silêncio e olhares. Mais dois cigarros acesos.

“Me olha como se quisesse dizer algo” comentou o geminiano.

“Eu quero saber o que tem por trás de tanta roupa”

Ele maneou a cabeça, sorrindo. Ela inexpressiva. A coxa sempre procurando a mão dele.

Silêncio. Pensamentos um a respeito do outro. Cigarros e barulho de isqueiros.

“Eis um pau, e eis uma boceta, e eis um problema” ela declarou de súbito, após o terceiro cigarro aceso.

“Bukowski?”

“Sim”

“E qual seria o problema?”

Uma ponta de cinzas caiu no chão, ao seu lado. Aproximou a boca da orelha branca.

“O pau e a boceta estão separados. Este é o problema”

Uma coxa apertada novamente. Uma mordida de lábio num beijo urgente.

Logo após silêncio.

“Diz” ele exigiu, depois de tanto ser estudado por ela.

“Deveríamos sair daqui”

Não pensou duas vezes.

Cinco minutos depois estavam num hotel.

Bocas ansiosas, roupas no chão. A boina caiu.

“Espere”, ela disse “Quero sentir o gosto do teu corpo inteiro”. Ele deitou-se na cama e, nu, recebeu a boca que explorava aquele terreno desconhecido. Dos pés a cabeça, até que o abocanhou e fez mágicas com sua língua. Arrancava urros de seu docente, e ele, antes que derramasse seu mel, pegou-a de lado e a fez gritar. Receptiva e quente, ele deslizava perfeitamente.

Aurora rebolava como ninguém, disso ele soube na boate e teve a mais maravilhosa certeza naquele hotel.

Aquelas paredes assistiram loucuras vindas daquela cama. Os ouvidos das cortinas escutaram insanidades naquela noite. E quando os olhos do abajur pensaram ter visto tudo, a morena e seu professor fizeram o famoso meia-nove. Os dois explodiram naquele quarto apertado. Aurora sorria, sorria como ninguém. Sorria por estar ali e sorria por ele estar ali e os dois juntos faziam aquele momento solene de três, quatro orgasmos seguidos.

Quando pensou ter acabado, ele abriu-lhe as pernas e a fez mulher.

Saliva suor gritos dedos pele tapas mordidas panturrilha coxas urro.

As pernas se entrelaçaram. Dois cigarros foram acesos. Silêncio.

“Diz”, exigiu ele, ao notar estar sendo novamente vigiado.

“Eu quero no chão, nas paredes, na janela e nas mesas. No chuveiro, com certeza”.

“Na próxima, certamente”

Beijaram-se.

Aurora amou por uma noite e foi embora.

Leve, dona do mundo e de toda sua poesia. Cinco horas da manhã, a rua cheia de todos que estavam indo para seus respectivos trabalhos.

Andava como quem flutuava. Semblante sereno, batom vermelho, olho fechados.

A boina escarlate foi levada junto com a respiração de quem viu.

Sol brisa pássaros prédios sorriso buzinas gritos – São Paulo.

Morreu na contramão atrapalhando o trafego. 

15 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Marcos Molina
    out 11, 2011 @ 05:13:18

    WOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOW!!!!

    Eu quero uma Aurora

    Responder

  2. Marcos Molina
    out 11, 2011 @ 15:11:57

    Citar Bukowski é muito certo! \o/

    “com aqueles olhinhos estreitos de mestiça indígena”

    Eu nem vou citar quem, sobre quem…deixa pra lá!

    Responder

  3. Ghad Arddhu (@arddhu)
    out 11, 2011 @ 15:38:15

    Não sei se pela boina vermelha ou pelos olhos de mestiça indígena, mas foi inevitável me perguntar quanto de autobiográfico tinha nessas linhas. Se não nos atos, nos desejos e pensamentos, na inspiração ou na execução.

    Bons tons de vermelho-deboche e de rosa-desabrochada procurando a combustão, boas palavras escorregando pela lubrificação natural do que faz a boca salivar.

    Gostei 😉

    Responder

  4. Hiago Vitor
    out 11, 2011 @ 16:16:22

    ‘A mente humana é como um grande teatro. Seu lugar não é na plateia , mais no palco, brilhando na sua inteligencia e alegrando com suas vitorias’ Cury, Augusto. PARAABÉÉNS , QUANDO VAI VIIR A PROX. , BELA ESCRITORA?

    Responder

  5. Bianca Mello
    out 11, 2011 @ 20:45:25

    “Eis um pau, e eis uma boceta, e eis um problema” ela declarou de súbito, após o terceiro cigarro aceso.

    “Bukowski?”

    “Sim”

    “E qual seria o problema?”

    Uma ponta de cinzas caiu no chão, ao seu lado. Aproximou a boca da orelha branca.

    “O pau e a boceta estão separados. Este é o problema”

    Adorei essa parte, sou taradinha rsrsrs

    Responder

  6. Bianca Mello
    out 11, 2011 @ 20:46:00

    Mano, porquê diabos alguém tem que morrer depois de uma puta transa?rs

    Responder

  7. Harry
    out 12, 2011 @ 02:04:03

    Mano, que vontade de ter Aurora por uma noite. *-*

    Responder

  8. Erick C. Silva Patrick
    out 12, 2011 @ 05:21:52

    Cara, me lembrou um pouco de tudo esse conto. Lembrei da Caroline de Daydream Nation, Lembrei de algumas pessoas que já passaram na minha vida também. Gosto de narrativas romancistas. Vou acompanhar desde já…^__^ )”

    Responder

  9. Dante
    out 13, 2011 @ 03:56:05

    Ótimas palavras, um bom vocabulário, admito que não gosto de esse tipo de contos, mais realmente muito bom, uma mente brilhante pode fazer até um conto erótico parecer poesia.

    Responder

  10. Éber Miom
    out 15, 2011 @ 22:27:19

    Só sei que sei que li primeiro, antes mesmo da publicação hahaha
    E saquei, nas primeiras linhas as demasiadas inferências, haha, curti pacas!

    Me lembrou o primeiro conto, menos escancarado que esse, mas bem menos poético.Esse é a evolução, do primeiro, e o começo de uma jornada rubra ou seria, poética/carnal? haueauheuaheuhauea
    =PPP

    Responder

  11. Logan
    out 24, 2011 @ 12:11:10

    Não leio muito esse gênero literário, mais com certeza gostei do conto, apesar de que você trabalhou muito o pré-clímax, e o próprio clímax não foi muito desenvolvido. Em relação a morte da protagonista, não sei aonde li mais, mais geralmente quando um autor mata o personagem e por que não quer fazer uma continuação, e com isso pelo menos a maioria dos leitores não gostam, pois quando a historia e boa eles gostão de continua a se delicia com a leitura.

    P.S bom trabalho e parabéns pelo trabalho, e um abraço e um beijo do seu grande amigo Logan

    Responder

    • Anny de Souza
      out 24, 2011 @ 16:30:02

      Algo que ninguém comentou e é o que eu também acho, é sobre isso mesmo que você citou: “apesar de que você trabalhou muito o pré-clímax, e o próprio clímax não foi muito desenvolvido”. Faltou muitas coisas nesse conto, mas como eu quis fazer algo pequeno, acabei resumindo coisas que era para ter mais extensão. Porque na realidade esse conto era para outro propósito.
      Fico tãooo feliz que você leu e comentou! De você, eu aceito qualquer critica, hahahaha…
      Obrigada, Lô!

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: