Já se pôs a Aurora

Leia antes: Aurora.

Andava como quem flutuava. Semblante sereno, batom vermelho, olhos fechados.

A boina escarlate foi levada junto com a respiração de quem viu.

Sol brisa pássaros prédios sorriso buzinas gritos – São Paulo.

Aurora dançou por entre os carros rumo à calçada, pra recuperar o gorro fujão que o vento bruto levará num sopro hostil.

A cidade acordou com o susto.

Parou. Fez-se parte da multidão que ansiosa andava e andava.


Andou. E o fazia como quem voava. Tornou seus cabelos negros numa trança francesa: queria sentir na pele do pescoço e ombros o ar fresco d’um dia que o sol ainda não acordará.Andava com a boina na mão, braços juntos do corpo, os olhos fechados. Esbarrava em todos; o corpinho sutil duma adolescente esbarrava em todos feito uma pluma num rosto áspero. Tocava a todos – tocava e encantava.Esse mundo quem nunca lhe deu nada…Era tão seu. Tão seu esse mundo.A cidade suspirou.

Já não quero a coisa toda; só um pouco de conforto e um pouco de sexo e apenas um mínimo de amor”. (Charle Bukowski)

O vento que soprou as cortinas foi o mesmo que entortou a flor e balançou a trança mal feita; ela quem desviou com golpes de pincel.

Penso em fazer amor com você quando não estou por perto, sussurrou. Ninguém pra ouvir.

Canto de pássaros, o mormaço, buzinas da Vila Mariana. Uma inspiração naturalista; nua, desferia cores na imensidão branca duma tela que já não havia espaço pra tanto sentimento.

Liberdade ódio paz – azul muito azul e confusão. Amor? Não, por favor.

Abre as janelas pra mim!, pensou alto, especulando; um tom de vermelho caiu no teu peito. Desenhando-lhe um coração? É culpa da poesia. Foi uma desculpa pra mais uma taça de vinho. Vinho barato esse, embriaguez fácil essa, nudez precisa: esquentava-lhe o corpo. Corpo quente, fácil de domar. Pecado, pecado.

Pianos… ela murmurou. Uma meia lua em laranja. Pianos em minha vida… Diagonal em violeta. Preciso de pianos em mim… Confusão em cinza. Faz-me piano… Turquesa. Sou um piano… porque quero ser um. Sou tudo que imagino ser.

E fez-se piano.

Abriu as cortinas da casa pequena.

Deixou sair às flores de dentro de si. Vestido amarelo, a boina vermelha, batom – sem luxo, mas se perfumou.

Nas costas o quadro que conceberá. Nos lábios um sorriso indeciso. Na bolsa de linho um maço de cigarros e um punhado de desapego. Chegou ao MASP, no centro da sua São Paulo. Milhares de corpos eram milhares de possibilidades.

Postou-se, receptiva, o quadro ao lado. Ascendeu um cigarro, cantarolou uma nota. Não chovia na cidade da chuva; era final de Novembro. Um mês com sabor e cheiros, era véspera de Dezembro. Mas sempre andava perdida no tempo. Perdida na vida. Vivia da forma como queria e o tempo era a hora que quisesse.

“Quanto custa seu quadro?”

Grave timbre, familiar. Já o ouvirá em gemidos abafados, em pronuncias intimas no breu e no aconchego da tua orelha.

Aurora olhou para Paulo. Ele sorria pra ela e para o quadro.

Retirou o cigarro da boca. “O quanto acha que deve pagar?”

“Você sempre responde perguntas com outra”

O silêncio de um trago. Aurora curvava o corpo pra longe; uma magnitude estranha queria fazê-la dança pro teu lado. Dançar no teu corpo. Era teu cheiro se não a cor da tua roupa.

“É uma bela arte” ele dizia, enquanto surgia perto da tela de rabiscos fartos de coisas a se dizer. “Que significa?”

“Que significa o que?” ela puxou outro cigarro. Ele quem ascendeu.

“Tudo isso” e ele gesticulou sobre a tela. Parecia que aquele quadro foi feito pra falar com ele, pra te passar algo. Que nasceu pra ser aquilo que lhe diria algo.

A morena se prostrou em frente a teu filho. Deslizou, numa suavidade sensível, os dedos longos das unhas do esmalte descascado, e acariciou uma reta em vermelho, do inicio qualhado a teu fim transparente.

“Aqui… aqui é confusão” ela falava quase sussurrando “Vermelho confunde a gente”. Buscou o cigarro na boca, e com o filtro laranja entre os dedos, passava a maciez da pele numa longa e vil coluna em cinza e verde. “Isso é fúria”.

“Você não combina com a fúria”

“Ela não deixou de existir por isso” rebateu Aurora, espalmando as duas mãos na tela. “Tudo isso aqui, tudo… tudo isso é eu. É a gente. É o mundo, entende?”

“E o que há por trás disso?”

“O que te faz pensar que existe algo por trás disso?”

“Porque ele é eu. É você. Somos todos nós”

Ela o encarou. Pela primeira vez desde que chegou, ela o encarou e se diluiu no marrom desvairado dos teus olhos de português.

“Há paixão, enfim”.

Silêncio.

“Vou levá-lo” Paulo disse.

“Levar a quem?”

“Ao quadro. O que pensou que fosse?”

“Pensei que fosse – (silêncio)”

“Que fosse você”

“Preciso de um drink”

“Levo a você”

“Não”

“Não?”

“Eu te levo”

A casa da mestiça era duma natureza fértil e calma. Paredes brancas com cores confundindo a lucidez do lugar. Paulo se sentiu bem a intensidade que emanava de todo o lugar.

Vinho no copo, sem taças. Vinho na garrafa. Vinho no corpo. Inevitável. O corpo dela lhe serviu de taça. Esqueceram de por o disco na vitrola. Mas atração estava lá dentro. Ela tinha gosto de malícia. Teu cabelo cheirava a flores e cigarro. E ele a bebia; bebia tua pele morena e nua e o vinho se tornou segundo plano. Bebeu de entre suas pernas e sucumbiu tua sede salaz. Aurora o empurrou, jogou Paulo no vinho e dos dois bebeu. Embriagou-se. Dopou-se do gosto de homem, cheirou-lhe o corpo, bebeu-lhe o suor e a pele pálida. Uma atmosfera intensa, densa, imprudente, salgada, agridoce. Agridoce.

Deitou-se o homem, deitou-se na pressão da mão fraca da índia, e da tua mão surgiu o estimulo daquilo que estimulado estava desde o vinho na morena. Abocanhou-lhe. Abocanhou-lhe o sexo e o impasse. Na saliva e na valsa da tua língua os urros. As cortinas dançavam. Dançava Aurora, dançava ele, dançavam juntos até a parede. As costas nuas na parede fria. Passeou nos seios da garota que passeou de volta a tua lucidez lúdica. Atirou-lhe no chão que se atirou nele, teu peito com o peito dele e esbarraram num pote de tinta azul. Escorreu-se nos corpos. Rolaram no chão, os corpos de anil. Aurora encheu a mão de vermelho, espalhou na barriga e na cintura do professor. Ele, devagar e divagando, encheu a mão de laranja e pintou-lhe os traços do rosto, as curvas dos seios e o umbigo esculpido da barriga.

Navegar navegou naveguei navegaram os dois.

Amarelo em suas pernas, roxo na virilha. Ela deu-lhe as costas e ele a pintou de verde enquanto adentrava-a. Teu grito vem junto do cinza no pescoço e tua cintura dançou na cintura dele; ele cada vez mais dentro e profundo no teu íntimo. Agarrou-lhe a cintura laranja que deslizou por entre as mãos. A força que venho foi pedida por ela que oscilava a cintura e jogava pra trás a cabeça; os cabelos eram turquesa.

Contra a parede: os corpos pintavam as paredes na arte da carnalidade sutil e viva. As pernas da menina abraçaram a cintura de Paulo e foi-se por dentro dela e desvendou-lhe um grito. Beijar-se-iam agora, mas era só um capricho; era luxo diante da divina trama que ali roteirizavam.

Caíram de volta ao chão. E no chão fizeram-se uma cor só.

Numa cor só dois orgasmos. Ele não parou depois do grito de Aurora e fez-la gozar de novo. E de novo. Sorria a menina gozada. Sorria, sorria.

Seu corpo era o pincel e ele a tela; pintou-lhe de si, agora ele era uma arte de sua autoria e autenticidade.

Dormiram.

No ar a arte, na arte a poesia e da poesia: Aurora.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. angela maria donadel
    nov 15, 2011 @ 10:54:00

    Exelente.Um texto empolgante,impossivel deixar de ler com atenção.Pura pimenta.Parabens.

    Responder

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