Cala a boca, Úrsula desamor

Eu quero música e lençóis com cheiro de hortelã.

Uma garrafa aberta de vinho tinto suave, mas sem a taça. Pois assim quero sentir a animalidade que é beber um vinho refinado no gargalo, assim como um caminhoneiro bebe Budweiser após ter comido uma puta magricela na estrada.

Vou querer um corpo nu dançando  na minha frente e não importa se é corpo de homem ou mulher; só quero mesmo saber se a cintura se move bem e se me faz lembrar um jazz clássico e sensual, já que vai dançar no silêncio do som da minha respiração rouca e maliciosa, porque cai sobre o rádio na ultima vez que cheguei no apartamento de porre. Pintarei as unhas dos pés de vermelho e das mãos de azul, enquanto eu fico brincando de pensar em como seria ter os peitos tomados por uma boca faminta e voraz. me permito pensar também, entre uma cutícula e outra, como me olhariam as velhinhas moralistas e viúvas do clube do livro e as mulheres mal-amadas das aulas de dança de salão. Eu muito mais que diva com minhas unhas de duas cores e esse hálito de vinho barato de quem não tem um tostão para comprar um Romanée-Conti, porque gastou sua pequena fortuna em aspirinas, bombons de cereja e gasolina prum carro que já fora pro conserto três vezes nesse mês. Mas puta que pariu, quem eu estou querendo enganar? Jamais que uma mulher de cabelos desgranhados, unhas vermelhas e azuis e com uma mancha de molho Rosé na saia poderia, um dia sequer nessa realidade muito da biscate, provar duma gota solitária desse vinho caríssimo que escapa ousada pelo canto da boca dum aristocrata barrigudo. E só de pensar que muitos doleiros, políticos, arquitetos, empresários e infinitude do “etc”, todos eles enchem as taças de Romanée-Conti das vadias do subúrbio que passam por seus enormes apartamentos, só de pensar nisso, me nasce uns ímpetos de ter uma morte bem mexicana e dramaturga. Mas de que adiantaria? As putas continuariam a usar seus scarpins gastos e a beber Romanée-Conti e o que eu teria seria somente uma morte anônima  e os pés de unhas vermelhas e as mãos ressacadas e sozinhas de azul. Sou do subúrbio, mas ainda não sou prostituta. Prostituta, segundo a faxineira do salão, é quem dá por dinheiro. Eu não cobro – dou porque é bom dar.

Talvez esteja no momento de trocar as cores. Mas eu queria mesmo é ter um balde bem grande de tinta azul-cor-de-céu-de-Minas-ás-6h00-da-manhã e banhar os lençóis brancos em movimentos bem desesperados de liberação e loucura e, enquanto ainda fresco, fazer muito sexo com um homem gentil que encontrei nos bailes de sexta-feira nesses lençóis, até ficarmos completamente libertos e  estivermos risonhos de tudo. Tínhamos tinta em cada intimidade do corpo e aquele cor exalava esperança. Até a hora do banho eu era um pedaço bem grande e bípede de esperança, e aí fui vendo a água morna levar a esperança líquida e anil pelo ralo. A esperança foi embora. Digo “Au revoir, Espérer” porque tudo fica mais elegante dito em francês. “Adeus, Úrsula solitaria. Solitária Úrsula” ela respondeu. Mas esperança de quê?, pensei. Esperança de ter algum dinheiro? De degustar Romanée-Conti? De lembrar o endereço do infame do meu ex-marido para rever meus filhos? E enfim, esperança de lembrar o nome dos caras que transo nas noites de música espanhola e vodka pura?

Ouço castanholas. Castanholas, diabos! Vocês não escutam também?

Quero uma lambida gostosa no pescoço e uma cor de esmalte novo.

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