Decadência com elegância

Essa é a parte no (des)romance em que a protagonista e o rapaz se estranham e tudo fica diferente. “Essa hora sempre chega”, pensa a desiludida mulher num suspiro familiar.

“Que tristeza, que tristeza…” oscilava a cabeça, oh pobre moreninha, continuando a bordar sua colchinha de angustias. “Cansativo” dizia com a voz embarga “Cansativo, muito mais do que triste, é cansativo” insistia “Cansativo… ter de chorar tudo de novo, ter de colher os pedacinhos do coração… sabe? Cansativo porque tem pedaços que rolam pra debaixo do sofá, atrás da cafeteira…” ela deu de ombros, era do costume “mas enfim, eu os acho. Vou e colo um por um… ás vezes acontece o azar e a cola acaba” ri irônica, tão pobre coitada, tão miserável, mas continua seu discurso solitário “…acaba e eu tenho de passar um tempo a mais com o peito doendo pela ausência daqueles pedaços que faltam. Consegue entender?” questionava o Nada, e o Nada, sempre tão cordial e empático, sorria com seu monte de nada dando o estimulo necessário para que a mulher – coitada da moça! – continuasse com seu monologo tristonho. Levantou-se meio torta, cambaleando, mas tinha passo firme, nariz erguido e a mão segurando o peito para que não caísse – me rendo!, peito covarde. Fique aí e agüente mais uns minutos de choro, mais umas doses de whiskey.

“Que cansaço…” suspirava de novo, só que agora parecia entediada, com aquele ar de papo de domingo e televisão. Sentou sobre o pé esquerdo e o direito oscilava, feito o pé de criança traquina, da poltrona gasta “Mas isso tudo é como…” a mão perdida no ar, os olhinhos estreitos, as ruguinhas num leque perto das têmporas. “Isso é como beber uma dose de pura vodka…” feliz por ter encontrado o início da metáfora, abaixava a mão e sorria meio torto, meio amargo “Isso é como beber uma dose de vodka… Depois que bebo vodka, fico muito mal. Mas essa dose já foi. Ele já foi, entende?” balança o pézinho número 36, num ar de intenções travessas “O importante é estar viva após o fim de cada dose de vodka. E porra, eu tô! E com elegância. Ah! Elegância, meu Deus!” exclamava, histérica “Ainda tenho de me preocupar com ela!” cai o rosto entre as mãos, as madeixas escuras uma cascata fúnebre nas bordas das mãos ressequidas “Mas a maldita vodka…” voltava com o rosto erguido, tinha uma metáfora para acabar. A pintura do rosto borrada por um choro conciso e impetuoso – safado do choro! “Sempre digo: não vou beber nunca mais. Não vou amar nunca mais” pigarra “Balela, garota!” senta com pernas de índio, apóia o cotovelo na coxa grossa e descansa o queixo no punho tatuado “Só estou tomando fôlego pra beber de novo…” levantou-se e deu uma pirueta – bailarina?! Louca! “e ser deselegante ao beber a vodka. Ao amar” ri “me entende?”

cai feito borboleta no pé da janela.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Jane Amorim
    jul 14, 2012 @ 00:14:21

    Muito bom… os cacos as colas… São todos personagens de um tempo que atende ao silêncio das horas … das horas tortas ou não… e sobre o som desses ponteiros cava no coração paisagens por vezes ETERNAS!

    Responder

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