A mulher derrotada do amor leviano e o cigarro que não acabava nunca

Perdeu até a pose ereta na hora de andar. Apertava o braço magro contra o corpo de moça dançarina para conter a jaqueta que dançava junto do vento. A mão tremula levava o filtro branco até a boca pintada de vermelho. O cigarro não acabava e ela já chegava à estação de metrô. Ficou parada, em frente a estação São Bento, e ventava muito.

Todo tipo de gente; homens, mulheres, homens que pareciam mulheres, mulheres que não sabiam o que eram, homens que se equilibravam sobre um salto plataforma melhor que ela e o toc toc toc toc dos salto alto naquele chão sujo de São Paulo era mais vivo que as caras, bocas, olhos, almas e tudo, tudo da gente que passava ali.

O cigarro ainda não acabou e brinquedinhos dos comerciantes de rua voavam brilhantes e azuis no céu-cinza-azul-marinho com nuvens de fumaça. Ela jurava, jurava com toda crença, que se subisse um pouco mais, viraria estrela. Mas caia ao chão. Ele jogava novamente; a coisa azul iluminava o céu, o céu triste triste das 18h15, e caia de novo. Voltava pro alto.

O cigarro insistia em existir e, de repente, todos os passantes tinham os rostos, roupas, gravatas, scarpins iguais. Todo mundo vivia na mesma miséria porque todos eram iguais e todos pareciam com um homem triste, calvo e se suéter cor-de-vinho.

Toc toc toc toc, o som dos saltos a penetrar sua cabeça forrada duma camada grossa de “por quê?”.

Notou, então, que as pessoas iguais, os vendedores, as pombas nos postes de luz, todos surravam, como quem indagava com cautela algo proibido: por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?…

Comprimiu os lábios ao redor do filtro branco. A mão gélida e ressequida agarrou a jaqueta em direção ao peito.

Caos. Sufoco. Medo. Ausência.

As vozes tomavam um tom autoritário e urgente: por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?

– EU NÃO SEI!

Cessaram.

O toc toc toc toc voltou. Os risos, as conversas avulsas, o som do freio gasto dos ônibus. Todos voltaram a ter suas próprias aparências.

Ninguém reagiu diante seu grito seco, dos pulmões gastos, da saliva pouca. A grande multidão de gente diversa e alheia prosseguia com seu cotidiano.

O cigarro anunciou seu fim queimando-lhe o dedo; um “porra!” escapou. Largou daquele filtro do cigarro que parecia prendê-la naquele delírio são.

Voltou a olhar pro brinquedinho azul que incendiava o céu com tua presença pura e singela.

– Vaga-lumes cegos – sussurrou.

A mulher derrotada do amor leviano e das mãos frias dentro dos bolsos da jaqueta se juntou a multidão que, acelerada, corria pra condução.

Pra trás o filtro branco, com marca de batom, ainda aceso.

Subia pro céu o vaga-lume cego.

[Escrito no trem/onibus]

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