Um punhado de mim pra não morrer

“Não, ninguém morre”, afirma Lygia Fagundes Telles, no texto Fragmento da carta à mãe em pranto do alucinante livro A Disciplina do Amor.
Ninguém morre. Lembrei de vó falando de minha orelha: “Sua orelha” e apontou pra ela, “Que tem minha orelha, Dona Maria?” sorriu toda mineira, “Igual a de teu pai. Idêntica!”
Justo eu? Que esteticamente não trouxe nada, nada desse homem: ele, tão branco com aquele queixo e nariz aristocrático de português, os olhos verdes e frios, calculistas. Eu, com a pele morena da descendencia indigena que vó (por parte de mãe) me presenteou, os olhos pequeninos e castanho escuros, alta, bem alta e ele era tão pequenino que mamãe se sentia mamãe dele também. Mas era lindo. Um lindo homem branco de riso difícil.
Mas quando me escurece o semblante e me fecho bem dentro de mim mesma, com aquela cara de poucos ou nenhum amigo – “Cidão! Cidão!”, exclama mãe, com aquele jogo de cintura que me intriga, de quem já está familiarizada com esse tipo de situação e tira de letra. “Credo, toda a arrogância do seu pai!”, adiciona meu irmão, filho de outro pai, mas filho de mesma mãe, no entanto considera-se mais filho do meu pai do que do seu pai de fato. Seu pai também morreu, todavia não está morto – está tão vivo nele quanto Cidão em mim.
A gente pode pensar, então, que além de todos os motivos, de todas as razões sociais, humanas e afetivas, ter um filho é uma extensão de nós mesmos para que a gente não morra de maneira definitiva.
Acredito que morrer é não ser lembrado em nenhum lugar e em/ou pessoa alguma. Aquele cara amargo que se preocupava em não deixar resquícios por onde passava e era tão, tão desprendido de qualquer laço amoroso que não foi capaz de deixar um herdeiro no mundo para justificar sua existência. E quando morrer, quem vai se lembrar? Passará em branco o teu ato de viver: quem é João? João não conheço, quem é seu filho? Não teve filho? Não sei quem é, não.
Pó. O diabo usou seus restos para rechear seu charuto.
Ninguém morre – exceto os que evaporam definitivamente deste mundo volúvel. Mas mundo e pessoa nenhuma desfaz uma obra tão bonita, que é o ser pai, o ser mãe.
“Seu pai adorava arrancar casquinha de ferida, principalmente as suas. E você abria aquele berreiro!, ele te empurrava pro canto e dizia ‘Ah!, vá pra lá então, sua chata!’”
Sorrio toda vez que me flagro com uma ansiedade imensa para tirar as cascas dos meus machucados.

[22/5/12 – ônibus sentido Terminal Diadema]

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Jane Amorim
    jul 12, 2012 @ 14:43:20

    Bravo – brilhante… como não sentir a altura da vida nesse horizonte de céu e chão!!! Um oximoro de lembranças e desejos! vivemos sob as linhas finas da vida para morrer VIVA nos raios da MEMÓRIA!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: