Um conto de metrô e nada mais

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Entrou no vagão de cabeça baixa porque ele é daqueles tipos que não gosta de esbarrar os olhos no olhos de ninguém. Não se trata duma pessoa tímida, mas acontece que, para ele, quando você esbarra o olhar no olhar de outra pessoa a outra pessoa vai pensar que você já estava olhando havia muito tempo e que provavelmente ele já estaria alimentando algum tipo de interesse, e ele não queria estar aparentando interesse por ninguém.

Também não se trata de uma pessoa ranzinza; talvez ele só fosse uma daquelas pessoas serenas que gostam de estar sozinhas em seu próprio mundo, com uma socialização até que agradável, mas só o necessário para manter sua rotina pacata no ciclo profissional que ele formou há trinta anos atrás e o segue até então.

Ele não esperava que uma senhora com problemas de coordenação em suas pernas encaroçadas esbarrasse em si e o obrigasse a olhar para frente e encontra-lá sentada igualmente em seu mundo de pessoas serenas que gostam de estar só. Ela tinha a cabeça baixa e escrevia num daqueles celulares que se toca a tela, só que ela escrevia freneticamente não como alguém que escreve uma mensagem para outra pessoa, e sim como alguém escreve algo para si mesmo.

Ele, então, deixou de ser o cara de cabeça baixa sereno que mantinha-se em seu próprio mundo para se tornar o cara sereno que tentava desvendar o mundo dela. Seu foco era claro, portanto um circulo celestial e iluminado se formou ao redor da garota que escrevia continuamente no seu celular de tocar a tela e tudo que havia ao seu redor era opaco, grandes manchas sem face.

Uma mecha de cabelo posta atrás da orelha. Uma torcida de nariz. Um franzir de lábios – ela franzia muito os lábios, tanto que aquele exercício com a boca tornou-se exclusivamente um ato somente dela a partir de agora e pra toda vida. E um olhar vidrado em qualquer ponto no chão preto do metrô para recolher alguma informação.

Em momento algum os seus olhos esbarram os olhos dele.

Na estação seguinte quando percebeu estava sentado ao lado dela num meio impulsivo-impensado, a propósito até cambaleou um pouco já que seu corpo não está acostumado com comandos impensados.

Percebeu que ela tinha um cheiro doce, um cheiro muito doce vinha dela, só que essa menina não tinha cara de quem era doce de fato; não que não seja feminina, acontece que ela tinha cara de que tudo que fazia era súbito. Que seu corpo já estava acostumado a fazer tudo o que seu cérebro acabou de pensar. E garotas delicadas não moviam um dedo sem antes ter pensado muito bem naquele movimento, então o fazia devagar e tornam isso algo delicado. Essa garota não é assim e ele achava que ela tinha jeito de quem fazia cinema. Cinema? Achou gozado tudo aquilo que estava supondo de uma pessoa que acabou de sentar ao lado. Porém, ele sentia que ela convidava qualquer um ali para descobri-la, ele sabia que era isso que ela sabia e fingia que não sabia, pra dar aquele ar de mistério, aquele ar de “nem estou sabendo de nada”. Era bem coisa de cinema.

Ela parou. Fez careta. Bufou. Respirou fundo cinco vezes e fez com as mãos a posição de ioga. Bufou de novo. Esfregou o nariz.

E de repente:

– Você não fica puto quando seleciona sem querer o texto e muito mais sem querer você aperta outra tecla e o texto todo é substituído por aquela maldita letra?

Ela desfez toda a muralha de seu mundo e penetrou-se no mundo vizinho com tanta ousadia e espontaneidade que o deixou zonzo, boca seca, sem resposta.

– Hoje está decretado o meu ódio perpétuo pela letra jota. Essa letra petulante engoliu todo o meu texto. E sabe o que é pior?

Ela falava sem olhar para ele, mas claramente todo aquele dialogo era para e com o homem sentado ao seu lado.

– O pior de tudo, colega, é que esses malditos não pensaram em fazer essa merda de celular com uma droga de tecla control! Aí, amigo, era só control e Z, e pimba! O jota vomitava de volta todo meu texto.

Respiraram fundo. A próxima estação era para todos deixarem o trem, então ela se levantou.

– Au revoir, Antonio. Você tem cara de Antonio, já te disseram? Obrigada pelo monólogo.

E saiu pela porta do vagão.

Em dois incríveis segundos ele sentiu uma dor agonizante no estomago e uma amargura na boca que jamais sentirá. Levantou-se e conseguiu sair antes que a porta do vagão se fechasse.

Procurou aquele cabelo em rabo-de-cavalo dançante em meio a tantas cabeças que formigavam o lugar.

Avistou-a, enfim, próxima a escada rolante, como quem esperava por algo,

– Ei – ele tentou a primeira vez e saiu um fiapo de voz esquisito – Ei! – tentou novamente e chamou-lhe atenção.

Ela virou. Ele ficou parado a sua frente, no meio da multidão sedentária que brigava para subir a escada rolante.

– Fico ainda mais puto quando acaba a energia no meio de um texto, mas ai eu penso que o Word vai salvar automaticamente e quando volto a ligar computador, ele não salvou coisa nenhuma.

 

Os dois ficaram em silêncio.

Ela agachou até conseguir alcançar os olhos dele que sempre estavam no chão, e o penetrou forte as retinas com seus grandes olhos de jabuticava, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes assim bem gratuitamente, e ele esbarrou os olhos nos olhos dela porque quis e estava interessado nela, e ele quis como um condenado a morte quer viver que ela estivesse interessada nele também.

– Eu ia tomar um café na padaria aqui do lado… mentira, eu não ia, mas eu vou se você quiser ir tomar um café na padaria. – Ela conteu-se a somente um suave sorriso de lado, porque de delicada não tinha nada – Você quer?

Ele chegou a abrir a boca, a boca dele era uma boquinha pequena e rosa e ficava ainda menor na grande barba cinza, então não se sabia se ele tinha aberto a boca e perdido a fala ou se tinha simplesmente entreaberto a boca para soltar todo o ar que seu grande nariz sugou.

De todo modo, ele sacou o maço de cigarros do bolso. Se lembrou que ainda estava dentro do metrô e antes de coloca-lo de volta ao bolso, soltou um “Quero”. Ela disse “Hã?” e ele disse:

– Quero tomar um café na padaria.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Vitor
    abr 25, 2013 @ 19:28:07

    Você estava me descrevendo! Essa é a minha rotina no metro de SP, decifrar os “mundos” das pessoas…

    Muito Bom!

    Responder

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