Veja bem, meu bem

Olha, garota, de que me serve “eu te amo” somente quando bêbada? Isso não me basta. Eu não quero amor embriagado, com gosto de vodka barata, tão metafísico e intocável. Eu quero amor palpavel, amor lucido, amor que existe após a ressaca. Essas migalhas tu guarda pra si, que eu ando faminto de tanto me negar o pão inteiro! Essa coisa de me regular cansa. Me rouba as fribas do corpo, garota.

Isso também de amar um dia sim e outro não me esfarela.

Cansei! Chega!

Amor aos feriado e as sextas massacra qualquer coração aflito, meu bem. Ou me ama de segunda a domingo ou me ama dia nenhum.

Mas você me liga tão mansa… tão cautelosa e sensível precisando de proteção, querendo que eu te envolva nos braços a todo custo. E eu, um pobre homem fodido e sozinho nesse apartamento que não entra luz faz três meses por não ter pago a conta, vivo a velas e migalhas de pão e de afeto. Você me dá a mão. Eu não tenho forças nenhuma para te dizer não, já que as gastei inteiramente inclinando a te rejeitar.

Dilacerado, rouco e calvo, eu abro a porta.

Vamos, entra logo antes que alguém veja. Não quero que pensem que abro a porta para a mulher que me faz entrar no elevador com essa cara horrível.

 

[5, janeiro de 2013]

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